Como garantir a segurança na prescrição médica

Já não é novidade que eventos adversos acometem pelo menos 10% dos pacientes hospitalizados. Mas é importante traçar estratégias para diminuir a ocorrência de dano aos pacientes. Um ponto importante para ser trabalhado são os eventos adversos causados por medicamentos. Uma metanálise de estudos prospectivos  demonstra que os EAs por medicamentos ocorrem em 6,7% dos pacientes internados, e que mais de 100 mil pacientes morrem por ano nos EUA por estes eventos.

Para minimizar estes casos, é necessário um trabalho em toda a cadeia medicamentosa, do fornecimento à administração das medicações. Um dos pontos críticos é a prescrição médica. Infelizmente a realidade é que nem todo médico prescreve de forma cautelosa, ou baseado nas melhores evidências, ou ainda com um olhar para eventos adversos ou interações medicamentosas.

Prescrevendo de forma segura

Dois médicos da Faculdade de Medicina de Harvard (EUA) que trabalham com segurança do paciente, publicaram em 2009 na revista JAMA as bases para uma prescrição mais racional e segura. É uma lista de itens que todo médico deve incorporar na sua prática de prescrição.

Pense além das medicações

  • Já no início do tratamento, pense em alternativas não-medicamentosas – isso pode minimizar itens na prescrição;
  • Não trate só os sintomas, trate a causa de base;
  • Pense em oportunidades de prevenção, e não apenas em tratar sintomas e doenças já estabelecidas – isso é importante na situação de ambulatório;

Prescreva de forma mais estratégica

  • Adie o início imediato de um tratamento sempre que possível – isso é muito importante quando há mais de uma condição a ser tratada, ou seja, comece pelo que é grave ou mais urgente;
  • Use poucas medicações, aprenda a usá-las bem – por exemplo, ao invés de tentar decorar todas as possibilidades de iECA, aprenda a usar bem dois como o captopril e enalapril. O mesmo princípio deve ser aplicado para todas as outras classes de medicamentos;
  • Evite troca de medicações sem ter razões baseadas em evidências – repense o que está motivando a troca da medicação, principalmente em pacientes controlados;
  • Seja cético sobre “individualizar” terapias quando os estudos mostrarem pouca evidência de benefício – muitas vezes os estudos são feitos em populações controladas e talvez não seja valido extrapolar resultados;
  • Seja extremamente cauteloso quando prescrever por e-mail ou telefone – isso é importantíssimo, principalmente para pacientes internados. Pense que você pode errar, ou que pode gerar o erro do profissional do outro lado da linha;
  • Sempre que possível, inicie uma medicação por vez – assim é mais fácil evidenciar resultados sejam eles positivos ou negativos, como o surgimento de eventos adversos;

Aumente a vigilância de eventos adversos

  • Mantenha sempre a suspeita da possibilidade de efeitos adversos – é importantíssimo pensar nisso, principalmente quando surgem novos sintomas no paciente, ou mudanças não previstas na evolução;
  • Educar o paciente sobre potenciais efeitos adversos ajuda em seu reconhecimento precocemente – o paciente provavelmente é a melhor fonte de informação sobre eventos adversos. Se ele tem o conhecimento, será mais fácil identificar  e avisar o médico prescritor;
  • Fique alerta para pistas de sintomas de abstinência de medicações que possam mascarar “recaídas” da doença – isso é fundamental em usuários de benzodiazepínicos e opióides;

Tenha cautela e ceticismo com novas drogas

  • Aprenda sobre novas drogas e indicações de uso de fontes sem viés e de colegas que sejam conservadores em sua forma de prescrever – ou seja, não siga “modas” sem ter base de evidências e sempre que possível contando com a experiência de quem já faz algo;
  • Não se apresse em usar novas drogas, pois novos eventos adversos surgem tardiamente – cada vez mais drogas que surgem novas no mercado podem se mostrar de alto risco após um tempo de uso. Fique atento quando há poucos estudos sobre a nova droga, ou estudos pequenos, ou ainda exclusivamente patrocinados pela indústria;
  • Esteja certo de que determinada droga modifica os resultados clínicos do paciente – muitas vezes prescrevemos “novidades” sem saber qual o resultado que a droga promove. Muitas vezes é um endpoint secundário, sem impacto em mortalidade ou morbidade;
  • Não indique nada fora daquilo que está embasado em evidências;
  • Evite ser seduzido por mecanismos fisiológicos e farmacológicos mas que não tem impacto clínico – mais uma vez, cuidados com drogas que geram resultados em variáveis fisiológicas, mas que não tem comprovação de impacto em mortalidade ou morbidade. Você só estará adicionando riscos, sem benefícios ao paciente ao prescrever tais medicamentos;
  • Cuidado como determinados estudos são apresentados – o viés da indústria farmacêutica pode ser muito influenciador. Aprofunde-se no tema sempre;

Envolva o paciente na prescrição

  • Não ceda à necessidade do paciente de tomar medicações baseado em propagandas ou novidades de mercado – o médico é formado para ter capacidade de decisão sobre o uso de uma nova droga. Aprenda sobre a mesma nem que seja para convencer pacientes de que a novidade não traz benefícios;
  • Evite adicionar novas medicações para problemas “refratários” pelo risco de não aderência – adicionar medicamentos pode dificultar a aderência do paciente. Além disso, problemas refratários podem demonstrar a possibilidade de outra doença (por exemplo, uma hipertensão secundária), ou apenas que há problemas de aderência do paciente;
  • Obtenha um histórico médico acurado para evitar a prescrição de medicações que não funcionaram no passado;
  • Suspenda medicações que não estejam funcionando ou que sejam desnecessárias;
  • Desenvolva no paciente a vontade de ser tratado de forma mais racionalizada – quanto mais você educar o paciente sobre os medicamentos que irá tomar, mais ele pode ajudar.

Pense no longo prazo

  • Pense além dos efeitos de curto prazo, considerando também os riscos e benefícios em longo prazo – ou seja, veja se o que você está prescrevendo não causa riscos a longo prazo;
  • Procure novos ferramentas e sistemas de prescrição (informatização, monitorização laboratorial) mais do que apenas inserir novas drogas para melhorar a farmacoterapia – inovar na prescrição não significa apenas incorporar as novas drogas do mercado, mas também informatizar a prescrição ou ter sistemas que auxiliem na tomada de decisão.

Fonte: Instituto Brasileiro para Segurança do Paciente – IBSP.