Doutor responde! Entrevista com o Dr. Morton Scheinberg

Dr. Responde - 1

Pergunta: A mídia veiculou notícia acerca do tratamento de células tronco e que as mesmas podem reiniciar o sistema imune e recuperar mobilidade de alguns pacientes. Se isso efetivamente ocorrer, em que casos se pode ter a esperança deste fato se transformar numa verdade? O tratamento de células tronco vai evoluir para servir de recurso terapêutico também para outras patologias?

Resposta: O transplante com células tronco pode ser feito com objetivos de tratamento e de medicina regenerativa. Tem sido usado com objetivo terapêutico em doenças hematológicas, deficiências imunológicas e autoimunes. No lado regenerativo ainda está em fase inicial e experimental.

Pergunta: Há poucos meses o senhor publicou um artigo onde reconhece cientificamente que algumas doenças reumáticas podem ter como fator desencadeante o vírus da chikungunya? Como o senhor chegou a essa conclusão científica?

Resposta: No caso da chikungunya o que se observou é que o vírus tem tropismo pelas articulações, tanto na fase aguda como na fase de reagudização, foi possível isolar o vírus nos tecidos articulares.

Pergunta: Alguns especialistas associam as doenças autoimunes às alterações dos hábitos alimentares que vem ocorrendo na população, sobretudo no último século. Até onde esta correção deve ser valorizada?

Resposta: No caso das doenças auto imunes o evento primário é uma predisposição associada a distúrbios de regulação de defesa do organismo, não tendo uma relação nítida com hábitos alimentares.

Pergunta: O senhor é uma das maiores autoridades mundiais no tratamento do lúpus! Existe alguma terapêutica nova em estudo para os pacientes portadores desta patologia?

Resposta: No tratamento do lúpus a introdução de medicamentos biológicos, a exemplo do que ocorre nas artrites inflamatórias, é uma grande novidade e uma promessa muito próxima de se tornar realidade na prática clínica.

Pergunta: O Brasil se envolveu numa grande polêmica ao aprovar uma lei autorizando o uso indiscriminado de fosfoetanolamina para pacientes acometidos de câncer. Tal legislação acabou suspensa por decisão do Supremo Tribunal Federal. Existem registros de pacientes que afirmam terem sido beneficiados pelo uso da medicação. Por que os cientistas brasileiros resistem em utilizar a referida droga, ainda que na condição de tratamento off label?

Resposta: A polemica sobre a fosfoetanolamina merece poucos comentários, houve confusão entre ciência e “achismo”.

Pergunta: Ainda sobre doenças autoimunes, as drogas a base de TNF tem contribuído muito para a estabilização e, em alguns casos, para a remissão parcial de certas patologias. Existem estudos para uma nova geração destes medicamentos? Em que fase estão?

Resposta: No caso das artrites que se beneficiam de anti TNF, novos medicamentos com princípios de ação distintos estão sendo introduzidos contra outras substâncias do sistema imune, como os anti IL17. O primeiro deles já no mercado brasileiro a partir desta semana.

Pergunta: O Brasil tem ilhas de excelência na pesquisa médica. No entanto, é muito comum nossos melhores cientistas deixarem o país em busca de melhores estruturas. O que pode ser feito para inverter esta lógica?

Resposta: Para aumentar as ilhas de excelência médica seria necessário atrair e fixar os melhores recursos humanos por aqui, mas aí o planejamento tem que ser a curto e a longo prazo.

Pergunta: O Hospital Israelita Albert Einstein tem desenvolvido atividades de formação de gestores na área de saúde. O que motivou o Einstein a adotar esta estratégia?

Resposta: O Hospital Albert Einstein foi criado pela comunidade judaica para atender no que tem de melhor na área da saúde, não deve se abster de atuar na área de gestão e educação da saúde. Inauguramos uma faculdade de medicina que deve se tornar uma das melhores no decorrer dos próximos anos.

Pergunta: O senhor indica o uso de medicamentos genéricos para os seus pacientes?

Resposta: Uso poucos medicamentos genéricos, mas uso quando pertinentes.

Morton Scheinberg: médico clínico e reumatologista do Hospital Israelita Albert Einstein e diretor da divisão de pesquisas clínicas do Hospital Abreu Sodré-AACD, especializado em doenças do aparelho locomotor. Possui especialização em Clínica Médica nos hospitais da Tufts University em Boston, especialização em Reumatologia pela Boston University e título de PhD em Imunologia pela mesma universidade. Possui atuação em assistência médica, ensino e pesquisa na área de reumatologia e doenças autoimunes. Professor Livre Docente da USP, autor de 260 trabalhos publicados nas principais revistas médicas do setor ao nível internacional, tendo sido parte do corpo editorial do Clinical and Experimental Rheumatology, Clinical Rheumatology e Brazilian Journal of Rheumatology. Publicou 4 livros na sua área de especialidade, sendo que o mais atual tratado de doenças imunológicas foi lançado em outubro de 2015 no Congresso Brasileiro de Reumatologia e em novembro do mesmo ano no V Encontros N&K. Em 2012 foi o primeiro médico brasileiro homenageado pelo Colégio Americano de Reumatologia com o título de Master, em reconhecimento pela sua trajetória no setor. No campo de inovações em tratamentos de doenças autoimunes tem presença ativa na avaliação de novos protocolos para artrite reumatoide, espôndilo artrites, lúpus eritematosos e artrites ligadas à psoríase.