É dever do profissional de enfermagem chamar o médico em horário de repouso?

É dever do profissional de enfermagem chamar o médico em horário de repouso?

 

parecer técnico do Coren-DF 01/2017 diz que não é dever do profissional de enfermagem chamar o médico em horário de repouso.

“Não compete ao profissional de enfermagem chamar o médico no repouso para atender pacientes em espera, pois todos os profissionais devem permanecer em seu posto de trabalho durante o plantão, respeitando o revezamento”.

O parecer técnico pode e deve ser discutido sobre duas perspectivas. O primeiro ponto de vista é que o hospital ou instituição de saúde deveria ter um sistema de telefonia, bip ou sinal de alerta para que o médico seja notificado/sinalizado da chamada. “Particularmente, penso que não é a enfermagem que deveria chamar o médico. Atualmente, com tantas possibilidades e formas de comunicação, não é preciso usar o recurso valioso da enfermagem, que tem como foco atender, cuidar e estar ao lado do paciente, para fazer esse serviço”, pontua a enfermeira Liliane Bauer Feldman, que é professora doutora, coordenadora do Grupo de Trabalho de Segurança do Paciente no COREN-SP, do Núcleo Metropolitano SP da REBRAENSP e gestora do serviço de ortopedia do Hospital Albert Sabin.

A segunda perspectiva, é que muito do que foi divulgado ilustra a questão de maneira distorcida, como se estivéssemos falando do profissional de enfermagem ter que entrar no quarto de descanso e acordar, ele próprio, o médico. “Não seria necessário um parecer técnico para apontar isto como absolutamente inadequado (o ato em si e possíveis desdobramentos). Mas um telefone (sim, aquela tecnologia desenvolvida no século XIX) contornaria o problema. E é assim que ocorre no cotidiano dos plantões da maioria dos hospitais”, diz o Dr. Guilherme Barcellos, membro honorário da Academia Brasileira de Medicina Hospitalar e coordenador geral da Choosing Wisely Brasil. “O uso caricatural de inadequações nas relações entre médicos e enfermeiros preocupa-me, pois este tipo de tema só desgasta a relação”, acredita o médico.

O Dr. Guilherme conta que, nos plantões noturnos em uma UTI onde ele fica responsável pelas intercorrências dos pacientes que evoluem no início do turno, durante as 12 horas de plantão, costuma atuar em paralelo a outros médicos. “Neste modelo, cada paciente tem um médico plantonista “responsável”. O uso do telefone para chamar o médico é empregado”, conta. E sem grandes problemas.

Soluções práticas

Segundo a enfermeira Liliane, outra possibilidade é que o Conselho Federal de Medicina reavalie a questão dos plantões. Às vezes, os médicos fazem 24 horas ou mais de plantão, sendo impossível manter a qualidade e a segurança na assistência, quando necessitam avaliar o paciente. “Nestes casos, ele precisa dormir para repor o cansaço, e não atende a necessidade do serviço”, acredita.

Para o Dr. Guilherme Barcellos, um modelo alternativo seria dividir todos os médicos de plantão em horários, deixando sempre um ao lado da enfermagem. “No campo da segurança do paciente, quanto mais estudamos, mais percebemos os efeitos nefastos da fragmentação. É impossível um mesmo médico ou enfermeiro estar disponível para o paciente 24 horas por dia, sete dias por semana? Alguma fragmentação é esperada. Entretanto, parece prudente modelarmos o sistema para menos quebras de continuidade do provedor que estamos aplicando atualmente. Se for um familiar meu hospitalizado, quero que, em momento de vulnerabilidade, como costumam ser as intercorrências, ativem aquele médico que está no quarto, mesmo que exista outro médico mais próximo, que deve até iniciar o atendimento em caso de urgência”, comenta Dr. Guilherme.

Planos de contingência 

O ser humano não consegue estar disponível o tempo todo. Existem pausas para banheiro, café, água. “Mesmo que mantivéssemos um médico ao lado do enfermeiro à noite, ele, ou o enfermeiro, ou o fisioterapeuta, pode não estar disponível no exato momento da necessidade. Imagine o enfermeiro no banheiro. Nestas situações, devem existir planos de contingência, e alguém deve chamar o enfermeiro do caso”, comenta o Dr. Guilherme.

Além disso, é preciso levar em conta os efeitos da fadiga do médico plantonista, levando em conta a realidade do sistema de saúde brasileiro. “Faço aqui a defesa de que aquele meu familiar internado seja avaliado naquela intercorrência por médico descansado (sempre que possível, é claro)”, diz o médico, que justifica: “Na aviação e em operações militares, estimula-se que o profissional durma nos momentos em que não estiver sendo exigido. Na saúde, se o médico chegar ao plantão esgotado (o que já não deveria) e está tudo tranquilo, deveria descansar um pouco, em nome da segurança do paciente. É preciso amadurecer muito ainda”, finaliza Dr. Guilherme.

Fonte: Instituto Brasileiro para Segurança do Paciente – IBSP.