Médicos defendem alternativas à bariátrica para tratar obesos

Estudo publicado no final de fevereiro no periódico “BMC Obesity”, liderado pelo médico brasileiro Flavio Cadegiani, apresentou os resultados de um tratamento com 43 pessoas, por mais de dois anos, em que 93% dos pacientes com indicação inicial para a cirurgia de redução de estômago chegaram a um peso saudável por uma combinação de acompanhamento psicológico, atividade física e tratamento com remédios — com monitoramento rotineiro e adaptação personalizada.

Os pacientes, com obesidade de moderada a severa e idades entre 18 e 70 anos, passaram pelo tratamento entre 2013 e 2015. Dentre as 32 mulheres e os 11 homens, três não atingiram a redução de peso desejada e tiveram indicação para a cirurgia bariátrica. Do total de pacientes, 88,4% haviam perdido mais de 10% do peso corporal após dois anos, e 74,4%, mais de 20%. Cadegiani e os coautores do estudo apontam, no entanto, a necessidade de outros trabalhos para validar as descobertas.

Na publicação, o médico reconhece que a intervenção cirúrgica, quando corretamente recomendada, leva a melhoras significativas em parâmetros metabólicos, na redução dos riscos cardiovasculares e cancerígenos, entre outros. Mas, o que se observa, na prática, é que as recomendações de diversas sociedades médicas para a cirurgia e para as etapas anteriores e posteriores a ela não são rigorosamente cumpridas. Uma delas, por exemplo, define que, antes de irem para a mesa de cirurgia, os pacientes devem tentar combater a obesidade, por dois anos, com métodos clínicos e multidisciplinares. No entanto, o que se vê na prática é bem diferente:

— No Brasil, esses protocolos acabam sendo seguidos com menos cuidado. A bariátrica é vista como se fosse a única opção, perfeita e sem problemas. Não sou contra a cirurgia, mas contra a sua banalização. Existem complicações após a operação, de ordem psiquiátrica e nutricional, por exemplo — aponta Cadegiani.

No Rio, o Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia Luiz Capriglione (Iede), através do Grupo de Obesidade e Transtornos Alimentares (Gota), também oferece um serviço multidisciplinar no tratamento da obesidade, que inclui a participação de psiquiatras, nutricionistas e assistentes sociais, além de encontros mensais em um grupo de apoio. O endocrinologista Pedro Assed, pesquisador no Gota, defende tratamento a longo prazo para a obesidade.

— Há pacientes que chegam no meu consultório para pedir um laudo para a bariátrica com a cirurgia marcada, antes mesmo de tentarem a perda de peso e uma investigação de desordens alimentares e psicológicas. Também chegam pessoas que voltaram a ficar obesas depois da operação. Nos primeiros dois anos após a operação, elas perdem peso que é uma maravilha, mas depois abandonam o tratamento — relata Assed, ressaltando, porém, a alta taxa de sucesso da bariátrica quando seguida corretamente.