Ambientes hospitalares exigem insolação adequada e ar de qualidade.

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A iluminação e a circulação de ar em ambientes hospitalares podem parecer, a princípio, meros sistemas funcionais. Mas esses sistemas estão muito mais ligados à saúde e ao bem-estar do que se imagina. “A luz é o que dá vida para o espaço, o ser humano compreende os volumes, cheios e vazios através da luz e da sombra”. É assim que o arquiteto Gustavo Pinto começa a explicar a importância de uma iluminação correta, seja em um ambiente hospitalar ou não.

A falta de planejamento ou instalações inadequadas podem produzir efeitos negativos que acabam afetando o ser humano tanto biológica como psicologicamente. Fadiga, redução da produtividade, estresse do sistema visual e alteração do ciclo circadiano – que corresponde ao período de aproximadamente 24 horas em que são regulados todos os demais ciclos do corpo humano e que sofre influência da luz solar – são os principais efeitos nocivos que um planejamento incorreto da luz pode provocar. “Todo ambiente precisa ter definidas suas funções e necessidades técnicas antes definirmos o tipo de iluminação da ser utilizado”, explica Gustavo. “A distribuição da iluminação deve ocorrer de forma flexível para que possamos criar vários cenários”.

Nas salas de cirurgia, por exemplo, o campo visual cirúrgico do médico está restrito à cor vermelha, que possui a intensidade estressante. Além disso, tal campo se encontra sob fonte de altíssima iluminância e, segundo Gustavo, uma luz direta, dependendo da sua localização, pode ofuscar ou interferir na precisão de um procedimento. “Também é preciso que os ambientes de acesso à sala de cirurgia possuam 50% da iluminância do campo cirúrgico e, gradativamente, a intensidade da luz deve ser reduzida para que o olho se adapte aos poucos e não sofra com uma luz tão intensa”, explica Marilice Costi, arquiteta, arte-terapeuta e editora-chefe da revista O Cuidador.

Ou seja, para cada ambiente, existe uma luz adequada. Nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), local de muito trabalho e situações de emergências, a recomendação é a luz dirigida com muita intensidade e bem distribuída. Durante a noite, a iluminação deve ser indireta e de pouca intensidade nas circulações, já nos postos de trabalho deve ser utilizada a iluminação direta. Segundo Marilice, no caso de deslocamento à noite, o staff – a equipe que trabalha no hospital – não deve causar desconforto aos pacientes. Por isso, as luminárias devem ter baixa iluminância e serem colocadas próximas do nível do piso, pois o chão deve estar iluminado para que os deslocamentos noturnos se tornem mais seguros. Nos quartos, próximo à cabeceira dos leitos, são necessárias luminárias que permitam diferentes níveis de luz e alteração do campo de iluminação. “Se o médico for examinar o paciente, a luz deverá ser mais intensa do que no caso de um enfermeiro prestar um auxílio, como alcançar água, por exemplo”, explica Marilice.

Além disso, o ciclo circadiano deve ser preservado sempre que possível. “A luz intensa pode despertar o ciclo que se tem durante o dia, preparando o organismo para as atividades diurnas e tirar o sono dos pacientes à noite, impedindo a recuperação ou exigindo maior consumo de medicação”. Outro fator que também se deve levar em conta no momento de planejar a iluminação é a fidelidade da cor. Segundo Marilice, em qualquer superfície a cor resultante sempre se dará em função da cor produzida pela lâmpada com a cor refletida pelo ambiente. “A cor da pele do paciente faz parte da anamnese e é fundamental para qualquer diagnóstico ou mesmo para o acompanhamento do paciente quando internado”, explica.

Por isso, para a iluminação geral, a lâmpada deve fornecer um bom Índice de Reprodução de Cores (IRC), que seja o mais próximo da luz solar, reprodução considerada “verdadeira” por muitos. Mas deve-se ter cuidado com lâmpadas que tenham bom IRC e cuja iluminância é muito intensa. “Sob o facho dessas lâmpadas, as pessoas sentem-se em uma vitrine”.

Não são apenas as luzes artificiais que podem ser adaptadas e planejadas. “A luz natural é sempre necessária e torna os projetos mais sustentáveis. Existem diversos ambientes onde podemos utilizá-la, desde que localizada a abertura para coleta dessa luz de forma adequada”, esclarece Gustavo. “Devemos posicionar os sheds – estrutura utilizada, principalmente, em coberturas de construções para facilitar a iluminação e ventilação de fábricas – para o Sul, onde não temos a incidência direta do sol nos ambientes. Corredores, recepção, refeitórios, lavanderia, almoxarifado, consultórios e outros espaços podem ser beneficiados por esse recurso natural”, completa o arquiteto.

Estudos comprovam que a luz solar pode contribuir para a recuperação do paciente. Por isso, a sua importância em saúde disignO período de internação tem noção de temporalidade, quando pode observar as mudanças da luz durante o dia ao ter acesso à vista para o ambiente externo”, conta Marilice. Por isso, novos projetos de UTIs têm pensado no aproveitamento da luz natural, planejando janelas com persianas que permitem o controle de iluminação solar. Sobre os cuidados de manutenção com a iluminação, Marilice explica que se deve sempre respeitar as funções e o ambiente no qual será feita a reposição de lâmpadas ou qualquer outro tipo de reparo. “Um dos problemas que se observa com frequência é a substituição de lâmpadas. Reatores e lâmpadas devem ser compatíveis, caso contrário podem queimar”. Isso acontece, muitas vezes, porque as lâmpadas recomendadas não foram encontradas no mercado ou por haver interesse na redução do consumo de luz.

Dessa forma, acaba-se por substituir lâmpadas incandescentes por fluorescentes compactas em luminárias que não foram projetadas para este tipo, resultando em ofuscamento e não aproveitamento da lâmpada. “Vemos muito isso: reduz-se o consumo mas perde-se na qualidade de iluminação”, conta Marilice.

Já o nosso ar é composto por oxigênio, nitrogênio e outros gases e partículas emitidos tanto pela natureza como por processos industriais e combustão de motores. Mas não é apenas isso que circula no ar que respiramos: bactérias, vírus, fungos e outros germes também fazem parte dele. Como sabemos, esses micro-organismos podem causar doenças e alergias no ser humano. Se já somos vulneráveis a eles quando estamos saudáveis, em uma situação hospitalar, a exposição e propensão a eles aumentam.

Os sistemas de circulação de ar utilizados em ambientes hospitalares são planejados de acordo com a norma NBR 7256 da Agência Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Segundo essa norma, as instalações de tratamento de ar devem controlar as condições termoigrométricas – relação entre temperatura e umidade -, grau de pureza, renovação e movimentação do ar. “Estende-se por renovação do ar a operação de captação de uma determinada taxa de ar do meio exterior que é misturada à circulação de ar pelo sistemas de climatização”, explica o engenheiro César Augusto de Santi, que tem atuação na Associação Sul Brasileira de Refrigeração, Ar Condicionado, Aquecimento e Ventilação (ASBRAV).

Segundo César, a ausência dessa renovação em um sistema de climatização ou ventilação, principalmente em ambientes confinados, provoca um aumento da taxa de CO², resultando em sonolência, perda de rendimento no trabalho, aumento de probabilidade de contração de doenças respiratórias, entre outras manifestações que atingem o ser humano. “A concentração de contaminantes nesses ambientes fechados pode chegar a ser dez vezes maior do que a concentração no meio exterior (ar livre) se o ar não for devidamente tratado e renovado”. Em estabelecimentos de saúde, que exigem alto nível de assepsia, devem-se redobrar os cuidados com todas as etapas do tratamento de ar – climatização, ventilação e filtragem -, para que não haja proliferação nem cultura dos elementos nocivos.

De acordo com De Santi, as técnicas de saúde design um ar de má qualidade é aquele que, além de possuir um grau de sujidade elevado, carregado de vírus, bactérias, germes e outros particulados, não apresenta temperatura e umidade relativa compatíveis com o conforto humano. “A temperatura é o fator mais sensível para as pessoas”, explica o arquiteto Marcos Barbedo. Segundo Marcos, o conforto e a segurança biológica são as principais funções dos sistemas de circulação e condicionamento do ar em hospitais, situação mais fácil de visualizar quando pensamos nos pacientes. “A maioria dos pacientes encontra-se com imunodeficiência, seja devido a doenças infecciosas ou em processo de recuperação cirúrgica”, conta César.

Por isso, esses pacientes têm maior probabilidade de contaminação, tanto superficial – pelo contato -, como pelo ar”. Assim, uma boa recuperação do paciente depende do ambiente, que deve estar o mais limpo possível e em condições confortáveis de temperatura, umidade e limpeza do ar. A equipe médica também é vulnerável aos efeitos de um ar mal ventilado. Por conta do trabalho que realizam, os profissionais da saúde convivem com riscos até mais elevados de contaminação do que os pacientes, e devem estar sempre atentos às boas práticas de assepsia. “Por exemplo, temos os farmacêuticos que manipulam materiais tóxicos, como os utilizados na quimioterapia.

Eles devem ser protegidos por não correr risco de inalar ou entrar em contato com esses materiais. Por isso, os sistemas de ventilação e circulação de ar no ambiente de trabalho desses funcionários são planejados para proporcionar segurança durante a atividade”, explica o arquiteto Marcos. Sobre os cuidados com a manutenção mecânica dos equipamentos de tratamento do ar, tanto o arquiteto Marcos como o engenheiro César concordam: é necessário manter um cuidado constante com a limpeza dos sistemas e troca dos filtros de ar, que devem ser sempre realizadas por uma equipe capacitada.

TOPGESTO – Gestão Segura em Saúde.

Por Verônica Lemus