Seis capacidades de médicos engajados com segurança do paciente

A medicina é o curso mais concorrido na maioria das universidades do País. Desde o vestibular até o início da carreira médica, o profissional passa por dificuldades, recompensas, controvérsias. Ao fim da residência, o médico se depara com o desafio de seguir seu próprio caminho. E, atualmente, além de toda a dedicação aos estudos para ser um bom médico, destacam-se aqueles que estão engajados com o que há de mais vanguardista na saúde: segurança do paciente.

Para ser um médico engajado com segurança, é preciso despertar para seis capacidades.

Colocar o paciente como foco principal
Ter foco no paciente, seja em um consultório ou dentro de um hospital, é o que pode promover uma verdadeira revolução na saúde do Brasil. “Não é o staff que mais importa, tampouco a agenda financeira. Isso porque se o olhar estiver voltado ao cuidado do paciente, os recursos financeiros podem mais bem aproveitados, evitando desperdício”, acredita o Dr. José Branco, diretor científico do IBSP.

A saúde criou um sistema muito complexo, no qual não temos soluções simples para problemas que precisam de lideranças com nova visão centrada no paciente e uma abordagem multidisciplinar. Isto é uma grande oportunidade para lideranças inovadoras que consegue ver além do seu tempo.

Atuar em parceria com equipe multidisciplinar
Principalmente no ambiente hospitalar, o médico não atua sozinho. A equipe multidisciplinar garante que o cuidado de saúde seja prestado com mais segurança ao paciente. O médico que consegue enxergar o valor dos profissionais que estão atuando na instituição, seja o enfermeiro, o farmacêutico, e até mesmo a área da limpeza certamente irá desempenhar seu papel com mais qualidade. “Reconhecer a importância do trabalho de cada um e sua complementariedade é de suma importância, pois ninguém realiza sua atividade com excelência sozinho”, diz o Dr. Breno Figueiredo Gomes, Clínico Geral pela Sociedade Brasileira de Clínica Médica, com MBA “Executivo em Saúde” pela FGV – Fundação Getúlio Vargas, coordenador da equipe de clínica médica 5 da Rede Mater Dei de Saúde – BH (MG). “Cada vez mais o médico precisa dessa atuação multiprofissional”, concorda o Dr. Lucas Zambon, diretor científico do IBSP.

Compartilhar as decisões com o paciente e sua família
Além da atuação multidisciplinar, a sociedade está em um momento em que se precisa haver uma revolução na área da saúde, pois os custos são altos e a população cresce e envelhece cada vez mais. “A incorporação da tecnologia na área da saúde está feita. O que é preciso é que o médico saiba adequar a tecnologia disponível à necessidade de cada indivíduo. O paciente precisa puxar essa revolução, vai ser difícil mudar. As pessoas – o paciente, a família, a sociedade – precisam se empoderar para conduzir para um cuidado centrado no indivíduo”, diz o Dr. Lucas Zambon.

O segundo passo neste empoderamento do paciente é que o médico compartilhe as decisões com o paciente e sua família, respeitando limites e, principalmente atuando com os princípios da medicina baseada em evidência. “Compartilhamento de decisões para uma boa prática médica é essencial na atualidade”, diz o Dr. José Carlos Campos Velho, geriatra representante do movimento Slow Medicine, a medicina sem pressa.

Seguir protocolos e diretrizes
Na área da saúde, o uso de protocolos é muito utilizado e está mais relacionado a uma programação orientada a objetivos.

A construção de protocolos assistenciais deve atender aos princípios legais e éticos da profissão, aos preceitos da prática baseada em evidências, às normas e regulamentos do sistema de saúde nacional, estadual e municipal e da instituição onde será utilizado.

“São várias são as vantagens apontadas para o uso de protocolos de assistência, tais como: 1- maior segurança aos usuários e profissionais; 2- redução da variabilidade de ações de cuidado, melhora na qualificação dos profissionais para a tomada de decisão assistencial; 3- facilidade para a incorporação de novas tecnologias; 4- inovação do cuidado; 5- uso mais racional dos recursos disponíveis e, 6- maior transparência e controle dos custos, além de que os protocolos facilitam o desenvolvimento de indicadores de processo e de resultados, a disseminação de conhecimento, a comunicação profissional e a coordenação do cuidado”, diz a médica infectologista Sylvia Lemos Hinrichsen.

“A padronização, portanto, contribui para atingir o equilíbrio entre os requisitos dos clientes e a melhoria da qualidade, assim como prover treinamento apropriado. Também assegura a rastreabilidade e a repetibilidade, promovendo evidências objetivas e, avaliando a eficácia e a contínua adequação do sistema de gestão”, complementa a médica. 

Garantir uma prescrição segura
Erros na administração de medicamentos podem ter consequências graves em qualquer paciente. Em consultas, ainda que essa prescrição seja feita por escrito, a letra de médico, que virou inclusive sinônimo de traços ilegíveis, deve informar de maneira clara para leigos e profissionais.

Além de uma receita legível, é preciso que o médico esteja atento a possíveis interações medicamentosas, principalmente em grupos de riscos, de crianças e terceira idade. “A prescrição segura de medicamentos na geriatria é uma das questões mais importantes”, diz José Carlos, já que os idosos apresentam quadros de polipatologias e uma gama imensa de remédios administrados diariamente.

No caso de crianças, o quadro torna-se ainda mais complexo. A diferença de idade e peso entre pacientes, por exemplo, é um fator que interfere diretamente no sucesso do tratamento e requer atenção redobrada dos profissionais. “Nas prescrições médicas, evitamos uso de abreviaturas e unidades de medidas não métricas (colher, ampola, frasco). Registrar a dose desejada para o peso da criança que será conferida pelo farmacêutico é de suma importância”, diz a Dra. Marta Pessoa Cardoso, médica da CTIP e consultora médica do Gerenciamento e Vigilância do Risco.

Praticar o disclosure
Apesar de o objetivo de segurança do paciente ser evitar o erro, o evento adverso, eles ainda ocorrem na prestação de assistência à saúde.

Diante de um evento adverso, o médico deve ter o processo estruturado de comunicação com o paciente e seus familiares para praticar o disclosureO termo é uma palavra da língua inglesa e costuma ser traduzida como “revelação” ou “abertura”.

“Além de ser um pedido formal de desculpas da instituição de saúde, o disclosure é o momento em que a mesma reforça seu compromisso em corrigir falhas, mudar seus processos e lutar para que um determinado evento não se repita, compartilhando análises e ações com o paciente afetado, ou seus cuidadores”, diz Renato Vieira, Gerente Médico Corporativo no Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo.

Fonte: Instituto Brasileiro para Segurança do Paciente – IBSP.