Professora Doutora Francine Leite : Tecnologia em saúde a serviço da vida.

fancine leiteTOPGESTO – Gestão Segura em Saúde entrevistou, com exclusividade, a Dra. Francine Leite que é graduada em Fisioterapia (UNESP), mestre em Ciências Médicas (FMRP/USP) e doutora em saúde pública e epidemiologia (FSP/USP), possuindo ainda título de especialista em avaliação tecnológica em saúde (IATS/UFRGS). Nossa entrevistada tem conhecimentos em saúde suplementar – sua última experiência foi no Instituto de Estudos de Saúde Suplementar – em resoluções da ANS, variação de custos médico-hospitalares (VCMH) e experiência em análises de informações em saúde e análises epidemiológicas. Ocupa desde agosto de 2014 a gerência de inteligência da empresa Gesto Saúde e Tecnologia (GST), que é uma empresa nacional pioneira no desenvolvimento de soluções para auxiliar as companhias a gerir de maneira eficiente a saúde de seus funcionários ao mesmo tempo em que obtém reduções de custos com uma melhor gestão do uso dos planos de saúde e do fator acidentário de prevenção (FAP)especialista em soluções de gestão de saúde para empresas. Francine Leite tem experiência no setor de saúde suplementar, passou pelo Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS) e detém conhecimentos sobre regulação, variação de custos médico-hospitalares (VCMH), entre outros. Na GST, trabalha no aperfeiçoamento do software de BI da empresa, o Gesto Inteligente, desenvolvendo algoritmos e estudos de mercado. Sob o seu comando está, também, o desenvolvimento de análises individuais de cada cliente, considerando o setor de saúde, suas especificidades e o perfil da sua carteira para identificar novas oportunidades de melhoria e controle de custos. A Dra. Francine Leite é uma valorizada profissional da área, que concentra em seu currículo a formação científica e a experiência de gestão. É uma estudiosa dos dados e métricas do setor de saúde. Confira a entrevista espacial para nossas colunas de inovação tecnológica e saúde high tech :

TOPGESTO – Quais os principais impactos que a tecnologia está trazendo para o setor de saúde no momento, sob o ponto de vista de aprimorar diagnósticos e dar eficácia a terapêuticas?

Dra. Francine Leite: Com o avanço científico e tecnológico, hoje é possível tratar e diagnosticar muitas doenças que antes não era possível. Isso impacta principalmente no aumento da sobrevida dessas pessoas. Por exemplo, a AIDS que antes tinha o prognóstico muito certo de óbito, hoje, com os medicamentos e o controle dessa doença, as pessoas infectadas levam uma vida normal e acabam falecendo até de outras causas não relacionadas às complicações da doença.

TOPGESTO – De que forma o uso de tecnologia pode contribuir para o aprimoramento da qualidade da gestão em serviços de saúde, de modo a otimizar custos e proporcionar aumento de resultados? A senhora pode citar um ou mais casos onde o uso da tecnologia apresentou resultados imediatos ou mediatos?

Dra. Fancine Leite: A tecnologia pode ser desde um medicamento até um novo programa de saúde. Para otimizar custos e recursos, é preciso sempre avaliar as evidências científicas dessa nova tecnologia a ser incorporada para subsidiar o gestor em aderir ou não. Às vezes uma nova tecnologia pode funcionar, mas é preciso considerar se ela funciona mais ou menos do que a tecnologia atual e considerar também o custo em relação a essa diferença no benefício. Então, em termos de gestão (tanto para o sistema público quanto privado) é preciso olhar também para a custo-efetividade para que a sustentabilidade seja possível.

TOPGESTO – Existem atualmente inúmeros aplicativos que podem ser usados por várias profissões voltadas à saúde humana. Diante disso, como fazer para que o profissional da saúde se mantenha atualizado ou ingresse nessa nova era digital?

Dra. Fancine Leite: Só o fato da facilidade de comunicação em tempo real pode ser uma grande facilidade para os profissionais de saúde. Hoje existem inúmeros grupos de discussão que permitem profissionais de diferentes localidades discutir um caso, por exemplo. Há também a telemedicina, que são grupos organizados que podem acessar médicos consultores para quando tiverem dúvidas. Outra forma de se manter atualizado é acessar artigos científicos. O Ministério da Saúde tem o programa “Saúde baseada em evidências” que permite o acesso a importantes periódicos científicos gratuitamente O link (http://portalsaude.saude.gov.br/index.php/o-ministerio/principal/periodicos) é um exemplo do que falo. E, caso o profissional não tenha segurança em como interpretar, há cursos gratuitos que auxiliam nesse aperfeiçoamento. Outro exemplo é o link http://www.virtual.unifesp.br/home/card.php?obj=14.

TOPGESTO – O setor de saúde pública do Brasil, tem ilhas de excelência, mas tem um oceano de déficits em qualidade no atendimento dos pacientes, sobretudo do SUS. Existem softwares livres de boa qualidade que poderiam proporcionar uma melhora na prestação e nos controles dos gastos públicos na prestação destes serviços pela União, Estados e Municípios? O que dificulta o uso desta tecnologia pelos serviços públicos?

Dra. Francine Leite: Antes de se pensar em softwares livres, é preciso pensar na cultura da informação. Sem informação, não se toma decisão. Se a organização não dá importância para ter o hábito de coleta sistematizada e de qualidade, é complicado. No sistema público de saúde, muitas das informações que temos disponíveis hoje são para pagamentos, as demais, ficam sob responsabilidade de cada unidade, prefeitura, estado. Não temos políticas ou essa cultura de coleta sistematizada de informações assistenciais. Em relação a software, no sistema público há disponível um para comunicação e pagamento. Entretanto, é preciso evoluir e não pensar na informação apenas para pagamento. É preciso desenvolver essa cultura, que independente de ferramentas e, posteriormente também, pensar em analisar essas informações, seja via BI ou até com softwares estatísticos. É preciso conhecer a população e como está a assistência à saúde. E isso pode evoluir junto. O ministério da saúde já realiza a PNAD periodicamente, já possui o Datasus, tem ensaiado uma ferramenta de BI. Precisa investir na cultura da informação, na padronização, na educação da importância do preenchimento dessas informações…

TOPGESTO – Como a senhora avalia a posição do Brasil em relação ao mundo no âmbito do desenvolvimento e do uso de novas tecnologias voltadas à saúde humana?

Dra. Francine Leite: Em relação ao desenvolvimento, temos gaps por questões de legislação, importação de insumos, fatores que dificultam o desenvolvimento e criação de novas tecnologias. No que tange ao uso de novas tecnologias, em parte há uma pressão via o sistema privado de saúde e pelos fabricantes. Por outro lado, o processo para se registrar um produto novo tem suas críticas. Ainda, esse registro independe de uma análise mais profunda de custo-efetividade. Tentando seguir a linha de agências da Europa e América do Norte, há a CONITEC (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS), que inclui a análise baseada em evidências, levando em consideração aspectos como eficácia, acurácia, efetividade e a segurança da tecnologia, além da avaliação econômica comparativa dos benefícios e dos custos em relação às tecnologias já existentes. Para que o Brasil alcance o patamar de agências como a NICE, seria necessário incorporar um ponto de corte de custo-efetividade para incorporarmos ou não uma tecnologia. Hoje, não temos essa definição. E é esse limiar que poderá auxiliar na transparência da decisão e na sustentabilidade da saúde.

TOPGESTO – Considerada a sua formação específica e larga experiência, quais os primeiros passos que um serviço de saúde deve adotar se quiser se aprofundar no uso de novas tecnologias para ganhar qualidade, eficiência e eficácia no atendimento dos seus pacientes e obter aprimoramento dos seus processos e procedimentos gerenciais? Quais as ferramentas tecnológicas que a senhora indica e onde é possível encontrá-las?

Dra. Francine Leite: Para uma boa gestão de qualquer serviço de saúde, o primeiro passo é conhecer a população que é atendida por esse serviço – tanto em relação ao perfil de saúde e doença, quanto às questões sociodemográficas e ambientais, pois são determinantes de saúde. É preciso também acompanhar essa população e cuidar para que essa seja bem tratada. Um outro passo, é prever acontecimentos graves, evitando assim, resultados em saúde piores. Para isso, é preciso ter todas essas informações ao alcance das mãos, para que se consiga diagnosticar a população, desenvolver indicadores chave de desempenho para o grupo e para grupos específicos identificados nesse diagnóstico e medir resultados e reavaliar as ações desenvolvidas. Para essas informações consolidadas e integradas é preciso uma ferramenta que permita esse agrupamento de forma rápida e fácil de atualizar e acompanhar. Consequentemente, essas informações melhorarão processos gerenciais e as ações desenvolvidas. Essa solução de integração de dados, de acompanhamento e de customização de indicadores está mais avançada e amadurecida na GST (http://www.gestosaude.com.br)Paralelamente, ficar sempre antenada às inovações e suas avaliações, lendo artigos científicos e incorporando tecnologias (lembrando que pode ser de um medicamento a um programa de saúde) que tenham evidências que demonstrem a segurança, que funcionam e que são custo-efetivas.