Trauma emocional e erro médico

Trauma emocional e erro médico. Sim, uma ação judicial de erro médico pode decorrer de um trauma emocional!

Temos que saber usar as palavras

Vou narrar hoje, um caso no qual, atuei como advogado especialista em direito médico e da saúde, na defesa (o que sempre faço, pois não acuso profissionais da saúde) de  um experimentado e conceituado médico brasileiro.

Certo dia, fui procurado por um grande cirurgião, que havia atendido um paciente, com 40 anos, com uma hérnia inguinal à direita. Feitos os exames, o médico levou o paciente à mesa de cirurgia. Tudo correu bem…

No pós operatório imediato, o paciente teve um edema de bolsa escrotal (intercorrência possível e provável). Recebeu atendimento, orientação de repouso e abstinência sexual por 30 dias.

O susto de uma ação judicial

Condutas clássicas… Menos de três meses depois, o médico foi surpreendido pela visita de um oficial de Justiça. Trauma emocional e erro médico começaram a andar juntos!

O paciente havia ingressado com uma ação de indenização por danos morais e materiais, alegando ter ficado impotente e estéril em decorrência do ato cirúrgico, que segundo ele, havia seccionado o seu canal deferente à direita; alegando que o edema de bolsa escrotal havia afetado seu sistema reprodutor, tornando “um inválido impotente e estéril“.

Alegou que era casado, que tinha um filho de 4 anos e que em razão desta situação, sua companheira o havia abandonado, pois não podia mais satisfazê-la sexualmente.

Pedia 1.000 salários mínimos de indenização, alimentos e outras verbas…

Apresentou um espermograma com azoospermia (diminuição do número de espermatozoides) e necrospermia (espermatozoides mortos).

O médico, embora experiente, estava assustado… Não conhecia na literatura médica, nenhum caso de edema de bolsa escrotal que acarretasse impotência e esterilidade juntos.

Nunca estivera e juízo antes e; era absolutamente analfabeto (sem que isso sirva de adjetivo para desqualificá-lo) nos assuntos da Justiça. Entendia que ser processado significa já estar condenado.

O desconforto de uma ação judicial

Expliquei a ele as fases do processo, que tudo teria ampla defesa e direito de contraditório, provas, etc. Ficou mais tranqüilo, porém muito nervoso.

Falava em desistir da medicina, como quase todos nesta situação chegam a cogitar sempre que estão diante de uma ação que envolve direito médico e da saúde.

Mas este é um assunto para outro artigo : o despreparo dos médicos para as coisas corriqueiras da vida !

Os médicos precisam entender que trauma emocional e erro médico podem andar juntos quando não percebidos pelo profissional.

Passamos a estudar o caso com alto grau de detalhamento… Vou direto ao assunto.

Conclusões da ação judicial

Chegamos a algumas conclusões rápidas, frutos de uma investigação profunda, sob o ponto de vista vertical da patologia e técnica cirúrgica; e, sobre o ponto de vista horizontal da vida do paciente/autor da ação. Vamos a elas :

Primeira : se o paciente apresentou espermograma com azoospermia  necrospermia seu canal deferente, por onde passam os espermatozoides, não havia sido seccionado no ato cirúrgico. Até porque, sendo a cirurgia à direita, se houvesse um erro este poderia quando muito, atingir o canal deferente à direita, nunca à esquerda, já que existe um de cada lado abaixo da região pubiana masculina. Além do mais, a região anatômica do canal deferente, ficava a anos luz de distância da região anatômica onde foi corrigida a hérnia inguinal. Só uma barbeiragem que beira as bordas do absurdo permitiria um seccionamento como alegado. Dai alguns raciocínios: a) o espermograma do paciente não era dele; ou não houve seccionamento de canal deferente algum, e o paciente não estava estéril nem impotente;

Segunda : a inervação responsável pela potência no homem fica na região anatômica localizada na região sacroilíaca, ou seja : nas costas, perto da região lombar. Uma cirurgia de hérnia inguinal jamais chegaria aquele sistema de nervos. Também um edema de bolsa escrotal de modo muito difícil, atingiria esta função neural, não havendo nenhuma indicação bibliográfica sobre esta possibilidade.

A estrutura da defesa

Elaboramos uma defesa complexa e detalhada, amparada em estudos e pareceres de especialistas demonstrando que o trauma emocional e o erro médico objeto da ação não tinha nexo etiológico.

Pedimos uma prova pericial, que foi realizada, à época (quase duas décadas atrás), com o uso de um substância chamada papaverina que demonstrou que o paciente em questão não estava “impotente” .

Restava a esterilidade.

Fomos em busca de novos fatos. E eles não tardaram a surgir…

Podemos ver que a cirurgia havia ocorrido no dia 14 do mês de maio e que já no dia 5 de junho o paciente dera procuração ao seu advogado, que ingressou com a ação em  15 de julho.

Dai três raciocínios : ou ele não guardou o repouso sexual recomendado; ou premeditou a ação; e, que mulher séria larga um homem  em decorrência de menos de trinta dias de abstinência sexual ?

A audiência  judicial 

Algo estava muito estranho nesta história… Não expomos estes fatos na defesa, e os deixamos para o ato de realização da audiência, quando iríamos ouvir o autor/paciente em depoimento pessoal.

Instalada a audiência, começamos a ouvir o paciente e fizemos perguntas sobre o exame de espermograma. Ele se embaralhou. Trauma emocional e erro médico não se complementavam com uma realidade possível. 

Quando chegamos às datas da cirurgia, do repouso sexual, da outorga de procuração e do ajuizamento da ação, até o advogado do paciente ficou surpreso.

O juiz ficou impaciente e chegou a se irritar… Perguntado e apertado, o paciente  passou a não responder mais nada com nada. Totalmente confuso, emocionalmente lábil.

Notando esta labilidade emocional, requeremos ao juízo uma perícia psicológica, pois algo de errado estava aparecendo.

O juiz deferiu na hora e ordenou a suspensão da ação para ser verificada a higidez psiquiátrica do paciente. Um santo remédio !

A grande surpresa: trauma emocional e erro médico

Não tardou muito, tudo veio a tona. O advogado conversou em separado com o paciente. Voltaram à sala de audiências.

O paciente, muito constrangido, nunca esteve estéril, nem impotente. Usou de amizades para obter o espermograma.

Na realidade engendrou toda esta história para auto defender-se de um trauma emocional essencial.

Pertencia a uma família tradicional. Estava casado e não cumpria com os deveres do casamento, sobretudo relativos ao ato sexual, pois tinha rejeição à mulheres e atração por homens.

A filha não era dele, mas a havia assumido, com amor e dedicação. Erá ótimo pai. E, não queria queria perder seu amor, pois criara desde o nascimento.

Para justificar-se perante a comunidade religiosa onde vivia, e, sobretudo, perante familiares extremamente conservadores, criou esta verdadeira “novela”.

O médico foi sua maior vítima.

Mas, como ser humano extraordinário e experiente, que já havia operado mais de 1.500 pacientes da mesma patologia, o médico ofereceu o perdão, tendo compreendido a dor psicossomática do seu paciente com uma patologia possível, ainda que rara.

A ação foi julgada improcedente.

A partir da sentença, as partes, de comum acordo, requereram que o processo fosse arquivado em segredo de justiça, para evitar aumentar a dor do paciente, que embora tenha tentando prejudicar quem lhe ajudou, o fez com fundamento no que os psicólogos denominam de “trauma emocional essencial”,  que embora raro, sempre é possível em sede de direito médico e da saúde. 

Trauma Emocional Essencial em Juízo

Aquela ferida emocional, não consciente, afetou as percepções, decisões, condutas e até a saúde do paciente, fazendo-o tomar atitudes em prejuízo próprio, e o que é pior, em prejuízo dos outros.

Muitos casos judiciais envolvendo médicos e profissionais da saúde, decorrem do chamado “estado de medo”, ou de transferência de culpa. Um típico caso de trauma emocional e erro médico.

Os médicos podem aprender muito, com uma boa anamnese psicológica e comportamental dos seus pacientes.

Todos precisamos saber nos comunicarmos com clareza! Em qualquer profissão. Mas o médicos, de forma especial, precisam saber falar para convencer pessoas e de modo especial seus pacientes e familiares.

Ao longo da minha carreira, encontrei muitos médicos e profissionais da saúde que sabem se comunicar com excelência. Mas encontrei muitos que precisam de um bom Curso de Oratória.

Usar a comunicação é uma arte. Em qualquer profissão, em qualquer fase ou situação da vida, temos que saber usar as palavras.

No exercício da medicina, ouvir é importante. Mas falar, também é.  E com o uso das duas técnicas – ouvir e falar –  ajudar os pacientes: identificando, com cuidado,  a personalidade, o temperamento, as angústias, as queixas verdadeiras, as fantasias. Cada paciente é um universo.

Cada um com sua própria identidade e até fisiologia, com seus traumas e suas idiossincrasias.

Os seres humanos, são, como o futebol : uma caixinha de surpresas ! Trauma emocional e erro médico podem ser uma dessas surpresas, sempre!

Uma boa relação médico paciente, mesmo em casos de profissionais extremamente experiente, pode ser um caminho para achados clínicos/psicossomáticos  importantes.

Leia mais sobre riscos em serviço de saúde: http://www.topgesto.com.br/blog/gerenciar-riscos-em-servicos-de-saude/.

Luiz Carlos Nemetz  – Advogado especialista em direito médico e da saúde (nemetz@topgesto.com.br)